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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Desmamando - parte II: O império contra-ataca!


E segiu o processo de desmame.

Durante a sexta-feira, a rotina foi igual ao dia anterior. Tudo sem problemas. E a noite chegou.
Rotininha básica: janta, brincadeira, banho, música, chá. E Valentina não quis o chá. Nem o leite. Coloquei o bico na boca, enrolei no cobertor e fiquei com ela no colo. Em 40 minutos, Valentina dormia. Vitória!? Pior que não.

Veio a madrugada. A mocinha acordou às 3h e pediu mamá. Eu não dei, ofereci chá, ela não quis. Chorou, chorou, chorou... Nossa, não vou nem entrar em detalhes que é pra não sofrer de novo. Mas ela chorou muito. Eu quase desisti. Só não o fiz por lembrar das recomendações do livro Segredos de uma Encantadora de Bebês, segundo o qual qualquer rotina precisa de três dias para que os bebês se acostumem. Como a Valentina tinha dormido só com o bico antes e ainda era o segundo dia, considerei isso um progresso e me mantive firme: sem amamentar.

Ela pediu uma "bolala" (=bolacha, biscoito), eu dei. Ela gritou mais um pouco pelo mamá. Minha mãe levantou da cama, me ajudou a preparar um chá e eu dei, insistentemente. E Valentina tomou. E dormiu. Claro que isso já era quase 5h da manhã.

Esse dia foi muito difícil. Ver a minha filha chorar é muito dolorido, por mais que eu soubesse que ela não estava com dor ou com fome, com nada físico. Era apenas uma vontade sua não atendida.

Minha mãe também ficou muito mal. Me pediu para desistir, que não aguentaria outra noite como essa. Me senti um lixo. Já me sinto mal por ter transformado a vida dela tão radicalmente com a chegada da Valentina, considerando que moramos com ela. Sem o apoio dela, fiquei bem perdida.

Passei a sexta-feira um fiapo humano. Tinha marcado horário para cortar o cabelo, mas nem isso me animou. Aliás, a bee estava meio atacada e não deixou meu cabelo como eu queria.

Ferramentas novas

Como não adiantava ficar choramingando, resolvi utilizar outras estratégias. Comprei a mesma marca de leite que a Valentina tomava na creche (onde ela toma liiitros de leite), comprei duas novas mamadeiras, com bico mais adequado, e ainda adquiri duas novas chupetas.

Minha mãe foi pro Litoral, o que foi ótimo, pois a ansiedade dela já estava me desestabilizando.

Seguimos nossa rotina noturna de jantar, brincar, tomar banho. Valentina pediu a música enquanto eu vestia o pijama, tomou a mamadeira de leite e dormiu. Acordou no meio da noite, pediu mamá, dei a mamadeira e ela voltou a dormir. Três vezes na madrugada!

PAUSA: Não pretendo dar leite para a guriazinha durante a madrugada forever. Como ela estava acostumada a acordar no meio da noite e ir direto para a amamentação, vamos tirar uma coisa de cada vez, né! DESPAUSA

E assim se seguiu dia após dia.
Aos poucos, fui tirando as mamadas da noite.

E a glória: uma noite dessas, ela ceio até mim e disse: "Mamãe, mamá naná" e foi correndo pro quarto dela!

A glória das glórias: essa noite, mamou antes de dormir e só acordou às 7h pedindo mamá!

Persistência e paciência são virtudes!!!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Desmamando


Comecei nesta quarta-feira (26) a desmamar a Valentina. Esse é um processo que eu pretendia ter começado antes, mas sabia que seria difícil, então esperei estamos preparadas.

PAUSA A minha filha tem um ano e meio, mamou exclusimente no peito até os 5 meses, já come de tudo e mais a ração do gato. Conversei com as duas pediatras que a atendem - uma homeopata e uma tradicional - e ambas me apoiaram. Ou seja, se alguém entrar aqui para criticar a minha atitude, pode dar meia volta. Fiz isso conscientemente, após muito ponderação sobre prós e contras. E eu sei o que isso significa pra mim. DESPAUSA

O dia de desmame da Valentina começou às 8h, quando ela levantou, pediu o mamá e eu não dei. Disse que não tinha mamá e que tomaríamos outra coisa. Ela não deu muita bola - até porque eu já vinha tirando essa mamada da manhã - e tomou chá.

No carro, ela pediu de novo. Não sei qual é o dispositivo que tem na cabeça dela que diz que carro é lugar de mammar, mas é só ela entrar no carro e, pimba!, pede. Neguei de novo, mostrei os auaus na rua (que ela AMA) e o dia seguiu. Deixei-a na creche com um beijão estalado e tudo certo.

No fim da tarde, fui buscá-la na escolinha. De novo, ao entrar no carro ela pediu. Eu disse que não tinha mamá e ela novamente se distraiu com os cachorros, pombos e qualquer coisa que se mexesse do lado de lá da janela.

Mas a hora de dormir estava chegando. E eu ia lutando para não ficar ansiosa, tensa, tendo chilique ou seja lá o que é permitido às mães terem. O grande "problema" sempre foi a hora de dormir, porque Valentina encasquetava (oi? tenho 90 anos e digo encasquetar) de não dormir sem o leitinho da mamãe.

Brincamos muuuito, rimos muuuito, ela jantou. Fiz um balde de chá - há relatos do pai dela e da minha "assistente" terem conseguido fazê-la dormir com chá, tipo, uma vez cada um deles... - e deixei uma mamadeira de leite pronta.

Hora de ir para o quarto. Vou poupá-los das minúcias com um resumo: ficamos hoooras lá ouvindo "muca" do CD de nanar, conversando, brincando com os bicos (doiX, como ela diz) - bico, por aqui, é como se chama chupeta, tá.

Valentina pediu ainda mamá, eu disse que mamãe não tinha mais, ofereci na mamadeira (que ela só não cospiu fora porque é uma menina educada) e se acertou com o chá.
Isso deve ter durado umas duas horas e meia. Até que ela dormiu, tomando chá e segurando meu cabelo.

Vitória parcial, ainda tinha a madrugada

Minha filha sempre acorda uma vez na noite pra mamar. Dessa vez, acordou às 5h e começou tooooda a maratona de ouvir muca, brincar com os bicos, tirar meia, colocar meia, trocar fralda... Até que às 6h15min ela dormiu de novo, de novo tomando chá.
Bom, acho que foi um bom primeiro dia de desmame, apesar de eu estar um caco. Segurar aquela guriazinha fofa de 10kg por todo esse tempo me fez querer voar para a academia de novo! Brincadeiras à parte, vamos aguardar cenas dos próximos capítulos.

UPDATE: Segundo matéria do site www.guiadobebe.com.br, "a Organização Mundial de Saúde, a Sociedade Brasileira de Pediatria e os principais órgãos de saúde e defesa da criança recomendam alimentar o bebê exclusivamente com leite materno até os seis primeiros meses e continuar a amamentar até o primeiro ano da criança." Feito!!! Para ler a matéria toda, clica aqui.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Os políticos e o twitter

A politicada ainda não entendeu que os tempos mudaram, a ditadura - e a censura - acabaram, a internet é uma realidade e o que eles fazem É SIM da nossa conta?!?! Pois é, sr. Temer, está na hora de compreender isso.
Aliás, que bom que a internet está sendo usada para distribuir informação que, até então, ficava restrita ou precisava, necessariamente, passar pelo crivo de editores e chefes de redação.
E viva o Twitter!

Do Correio do Povo de hoje

Temer se irrita com deputado "twiteiro"
Uma reunião de líderes partidários com o presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), para tratar da pauta de votações foi parar na Internet e deixou alguns parlamentares irritados. O deputado Capitão Assumção (PSB-ES) postou mais de 40 mensagens no Twitter, revelando o que cada líder falou a respeito da proposta de emenda à Constituição (PEC) que cria o piso salarial para policiais civis e militares. Por causa da indiscrição, Assumção foi advertido por Temer. "Isso não é útil para a harmonia da Casa", disse Temer.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Um dia interessante

Muito tempo sem postar, céus! Bah, o twitter anda recebendo muito do meu texto e o pobre do bloguinho ficou abandonado. Mas eu prometi ontem pra Margaretss que eu ia escrever e cá estou.

Dia propício né?!

Li em algum site em homenagem ao Dia Internacional da Mulher que haveria um chat para debater como conciliar os papéis de mãe, esposa e profissional. Oi? Só eu senti falta de mais um pé dessa mesa - a MULHER fica onde? Sim, aquela mesma que faz a unha, visita as amigas, se cuida, compra, realiza vontades. Não precisa conciliar esta? E a filha - afinal, também temos que cuidar dos nossos pais, irmãos, etc.

O dia de hoje celebra mulheres corajosas e ousadas que lutaram pelo direito de trabalhar e de ser respeitadas. Tenho lido muito - principalmente, desde que sou mãe - que o nosso grande desafio é conciliar todas as mulheres que precisamos ser. Será que a nossa grande luta nesta primeira metade do século XXI vai ser agradar a todos?
Não, obrigada. Sou a mãe que me esforço pra ser, a mulher que consigo, a profissional possível. Desde que a graninha esteja na conta, a minha filha cuidadinha e feliz e eu goste do que vejo no espelho (pelo menos, na maioria dos dias), minha consciência já está tranquila.

Penso que existem questões mais coletivas nos esperando. Como diminuir a diferença de salário entre nós e os homens? Como aumentar a nossa participação na política e nas corporações? Como diminuir o preconceito em tantos lugares onde ele ainda finca o pé? Como diminuir a nossa própria cobrança pelo corpo perfeito? Como fazer nossas filhas não acharem que ser mulher-fruta é legal? Como tratar os homens direito: nem como senhores, nem como escravos - mas como homens, simples e divinamente homens?

É, meninas. Vamos trabalhar porque ainda temos muito pra resolver. Com todo o poder da unha pintada e do salto alto, néam?! ;-)

PS: Dispenso o parabéns pelo dia, tá. A batalha é cotidiana.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Uma solidão solteira

Li esse texto no blog da Lu Brasil (www.lubrasil.net), que eu persigo no twitter (@lubrasil).
Nada do que li descreve com tanta precisão as delícias e, especialmente, as agruras do que é ser mãe. Pelo menos, até aqui.

UMA SOLIDÃO SOLTEIRA
por Fabrício Carpinejar (www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br)

O que é ser mãe? É nunca precisar responder a essa pergunta. Diferente de pai, que sempre se explica e gosta de se explicar. Mãe parece que nasce sabendo, não importa a idade, não importa a disposição. Julga-se como um dom natural e um desejo de vida, desde o momento em que brincava de boneca na infância e formava uma família imaginária no quarto. Que menina, quando pequena, já não sonhava em trocar a roupa do filho ao vestir e desvestir sua Barbie? Ser mãe não é encarado como profissão nem deve, mas é tão estafante quanto um início de carreira. O papel é visto como prazer e dádiva. Para alguns homens, é reconhecido como o cumprimento de um ideal. Um sonho. Mas não significa que será fácil. E não é. Responde a um dos períodos de maior aprendizado, nervosismo e tensão. Durante a gravidez, a mulher se multiplica. Espiritualmente é duas. Ganha atenção dobrada. Seus pedidos mais estranhos são atendidos. Cavalheirismo e educação exagerados batem à sua porta. Não me refiro aos assentos vermelhos do ônibus e do metrô e dos guichês do banco, reservados a gestantes. Muito além disso: abrem-se os caminhos do entendimento e da cordialidade. Ela encontra uma paz de bosque, uma quietude social. Não é contestada, criticada, desafiada. Nada que prejudique o andamento da gestação. Sua fragilidade a ilumina de carícias.

DEPOIS DO NASCIMENTO, desconfia de que sua barriga serviu para um aluguel de luxo, que os familiares se importavam com a criança a vir, não com a criança adulta que se transforma em mãe. Paparicam o bebê e ela acaba de canto, alheia, sequiosa por um aconchego que não chega. Na hipótese de atravessar uma cesariana, dolorida e custosa, não receberá sequer algum questionamento sobre sua saúde. Andará sozinha, bem lenta, atrás do cortejo. A depressão pós-parto não é uma miragem, sinaliza desvalia.

De uma hora para outra, a mulher não é mais responsável pela sua existência, é responsável por duas vidas. Não poderá se dar ao luxo de pensar somente em si. Pensará em si por último, caso sobre tempo. Aliás, vejo que não é casando que a mulher deixa de ser solteira, ela muda efetivamente de estado civil ao gerar um filho. A dependência é substituída pela independência, no sentido de orientar e educar a criança.

POR MAIS QUE ESTEJA ACOMPANHADA de um marido companheiro e atento, é como se mandasse no campinho. É ela que deverá responder - ou acredita que deve responder - no surgimento de dúvidas e impasses. O homem ainda goza da regalia de coadjuvante, com atenuante de que não precisa conhecer tudo. Pai está aprendendo a ser pai, mãe está ensinando a ser mãe. A crença é que a mulher tem uma enciclopédia embutida no ventre.

Licença-maternidade não é uma licença poética. Não é apenas estacionar o filho na vaga preferencial do seio. Mal se recuperou do parto e enfrenta a multiplicidade de atividades. Não dorme pelo medo de dormir e deixar escapar um apelo do bebê e ser incriminada por omissão. A insônia é o de menos. Até encontrar a posição certa de segurar o nenê para não ter cólicas, até encontrar a melodia adequada que tranqüiliza o choro, até encontrar a postura confortável para não sofrer com dor nas costas, é uma arte.

ENTRE CUEIROS E TIP-TOP, entre fraldas e lençóis, dificilmente será reconhecida em família pelos seus pequenos e imprescindíveis feitos. De que modo contar a terceiros e ao próprio marido o que fez? Que deu leite, arrumou as roupas, limpou o cocô, deu papinha e que essas operações tomaram o seu dia? As energias gastas em 24 horas serão reduzidas a um relato de três minutos. Dirão que é exagero. Começa a cobrança e a sensação de que não é compreendida.

O marido aparecerá em casa, leve e lépido, mais disposto (é claro), e brincará descansado com o filho, imitará sons de bichos, desfrutará da organização e de uma companhia para dividir as tarefas. Ele curte o que desejava para você. O pai é o parque, a mãe é dia útil. Resta assistir à alegria como se fosse sua.

IMAGINE UMA PROFISSIONAL HIPERATIVA
mergulhar de repente nesse mundo em que nada aparenta acontecer e tudo acontece sem jeito de demonstrar? Ter a rotina reduzida a dez quarteirões do bairro, na faixa que compreende a quitanda, a farmácia, a praça e o mercado, como um exílio em sua cidade? Uma mãe recente é uma ótima crítica da televisão à tarde. Pela primeira vez, é capaz de opinar com fundamento sobre a qualidade dos programas.

De um comercial a outro, o filho cresce mais rápido do que supunha. O que adiava para fazer continuará adiando. Se nos preparativos, demorava séculos para definir a cor do enxoval, as decisões agora são rápidas e fulminantes. São para ontem. O filho largou o peito, deve então acertar a temperatura do leite, preparar a comida, optar pelas peças da gaveta. Será que ponho casaco ou não? Está quente ou frio? O ponto mais visitado é a bunda rosada da criança, para verificar assaduras. As mãos cheiram a hipoglós e não é de estranhar que a pasta branca fique nos vãos dos dedos no momento de dormir. E, quando toca o telefone, a mãe se envergonha de dizer que está segurando o filhote no colo e faz o impossível para que a voz na linha não note o incômodo. Um malabarismo para acalmar os gritos do pequeno, entender a conversa e ser educada. Mãe carrega muita culpa desnecessária. A maternidade é uma solidão desproporcional, uma solidão solteira em cama de casal.

A libido fica em baixa, não se tem a mesma vontade louca de transar. Nem é vontade, é disposição, condicionamento físico. Após desbotar o tapete do corredor no vaivém, não há como se arrumar. Arrepende-se dos espelhos no quarto adquiridos para projetar posições eróticas. O homem se aproxima dengoso e amoroso e a dor de cabeça é a saída menos explicativa. Existe um cansaço inclusive para DR (Discutir o Relacionamento).

A mulher se vê acima do peso, com os seios estranhamente grandes (talvez o homem goste da protuberância, esquece que o aumento é inchaço, dói e não é para ele) e a cintura se equilibrando com a transformação. Pela primeira vez, um maiô não é uma idéia insuportável. O corpo está longe da rigidez e para recuperar as formas antigas só com muita ginástica, musculação e sorte.

ELA ESTÁ DISTANCIADA DO NÉCESSAIRE, substituída pela sacola forrada de plástico, com pomadas, panos, bicos e o restante infinito do arsenal infantil. O máximo a fazer é paquerar a sinaleira. O único jeito de avançar no sinal vermelho é ali, com o carrinho de bebê na faixa de segurança.

Se não está aprontando e ordenando as coisas, está limpando a bagunça. Se não está encaminhando a criança ao sono, está dormindo junto. O banho de banheira da criança que encharcará o piso será o raro momento em que se ausentará, ouvirá novamente sua respiração e buscará informações atualizadas da rua.

Falei do trabalho, porém é o isolamento que mata. O pai age, na maioria das vezes, como um porteiro das visitas, cumpre a convenção social de mostrar o bebê para em seguida continuar suas conversas. Um elogio pra lá, um elogio pra cá, a criança abandona a cena e a mãe corre atrás, para atender as chamadas noturnas. Não há como acompanhar os papos entusiasmados e eufóricos. Escuta-se as risadas do quarto, com receio de que a criança seja acordada e tenha que recomeçar o acalento. Torce para que as visitas saiam cedo.

OS AMIGOS E AMIGAS DA MULHER, de contato freqüente, de repente desaparecem. No início, podem rodear o bebê, propor bilu-bilu e esganiçar dublagens. Exaltam o nascimento. No instante do socorro e exaustão, nenhuma alma por perto. Acontece uma segregação silenciosa e terrível. Alguns se afastam para não incomodar, outros para não serem incomodados.

Durante essa fase, os relacionamentos escasseiam também devido à exclusividade materna. Quem não tem filho pode achar esquisito, mas pais discorrem na mesa sobre quantas vezes a cria foi aos pés e a cor das idas e vindas! Ela encontrará dificuldade de conversar de outros assuntos que não os relativos ao seu filho. Afinal, seu universo gira em torno dele. Vai se aproximar de outras mães para dividir suas dores e delícias. Um dos motivos para que as reuniões das creches sejam longas. É um momento de desafogo e de cumplicidade.

A MÃE QUER SE SENTIR OUVIDA, falar do que incomoda na hora em que sente. Não depois quando já se confortou. Ou antes quando não entende. Tal jornal – mãe é para ser lida no dia. A pior coisa para ela é estocar sentimentos e apreensões, como quem guarda inutilmente papel velho. Mãe deve dizer o que a confunde de pronto e ser respeitada em silêncio até o fim, para que a preocupação não seja convertida em recalque.

Quando não está ao lado da criança, mãe padece com severa intensidade. Uma saída para se distrair – ou ao retornar ao trabalho –, e está ligando apavorada para a babá, solicitando relatos minuciosos dos últimos movimentos do rebento. Pavor de que não há quem cuide melhor do que ela. Ou pavor de que alguém cuide melhor do que ela.

O QUE É SER MÃE? É nunca precisar fazer essa pergunta. O que se experimenta em segredo, o esforço hercúleo, o afeto pontual serão recompensados com a telepatia. A mãe notará que é possível esconder seus sentimentos de qualquer um, menos de sua criança, que alisará seus cabelos no desalento com o pente das unhas e nadará com alegria em seu corpo em cada abraço. E basta observar que a criança imita seu trejeito, basta reparar que a criança segura os objetos com a sua firmeza, basta reconhecer na voz dela o galho florido de seu timbre, basta cheirar o cangote e descobrir quantas fragrâncias não foram criadas, basta vê-la caminhar longe do apoio, balançando como um pingüim, basta ouvi-la dizer “mãe” com a pausa de uma reza, basta ser surpreendida com as repetições de suas idéias, basta que ela invente novas possibilidades para linguagem, basta que ela ponha a digital em um cartão, que ela retribua o “eu te amo”, e as adversidades serão esquecidas. As adversidades já serão amor.

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