Aberta oficialmente a temporada de veraneio 2009/2010. E, a despeito de todos os contratempos, consegui das um pulinho na praiuca. Ainda não rolou aquele banho de mar, mas só sentir o cheirinho, dormir com o barulhinho já foi uma delícia.
Foi também o primeiro passeio da Valentina à beira-mar. Pelos pulinhos e gritinhos do carrinho, ela adorou. Foi um encontro tímido, com trocas de acenos à distância, com um misto de curiosidade e receio daquele estranho super charmoso.
O lugar pra onde fomos é especial. Foi cenário de muitas descobertas e experiências da minha infância, de muitos encontros e desencontros e reencontros da minha adolescência. Pude, enfim, apresentá-lo à minha filhota. Tomara que ela aproveite tanto quanto eu.
Vem chegando o verão...
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Minha princesa
Gatinha!
Faz um ano que chegaste, meio de sopetão, em carne, osso e fofura, na minha vida. Um ano. Desde então, eu não sou mais a mesma. A cada dia, me ensinaste alguma lição. A cada dia, um novo encantamento.
Acompanhar as tuas descobertas, apoiar tuas experiências, observar teu sono, escutar a tua risada mais gostosa – tudo isso faz mais feliz a minha vida, dá sentido aos meus dias, dá força frente a quaisquer dificuldades e me garante que ser feliz é bem mais fácil do que parece.
Por tua causa, sou uma mulher melhor, uma filha melhor, uma cidadã melhor. Contigo, descobri o que é o amor, essa força que enche meu peito, se esparrama pelos meus poros e contamina cada uma das minhas células.
Amo tua carinha sonolenta, teu cheirinho quentinho quando sai da cama, teu andar ainda vacilante, tuas mãozinhas gordinhas curiosas, teus pezinhos ligeiros, teu olhar esperto, teu sorriso de poucos dentes, a tua pele macia. Amo estar contigo, brincar contigo, aprender contigo, crescer contigo.
Sou muito feliz por ser tua mãe. Sou grata a Deus por ter te colocado na minha vida, a minha valente menina que decidiu nascer, sim.
Valentina, minha filha: É teu aniversário e tu és o presente. O meu melhor presente.
Parabéns, minha bonequinha, minha florzinha, minha gatinha mais linda.
Te amo muito e sempre.
Beijocas estaladas da tua mamãe.
Marla
Faz um ano que chegaste, meio de sopetão, em carne, osso e fofura, na minha vida. Um ano. Desde então, eu não sou mais a mesma. A cada dia, me ensinaste alguma lição. A cada dia, um novo encantamento.
Acompanhar as tuas descobertas, apoiar tuas experiências, observar teu sono, escutar a tua risada mais gostosa – tudo isso faz mais feliz a minha vida, dá sentido aos meus dias, dá força frente a quaisquer dificuldades e me garante que ser feliz é bem mais fácil do que parece.
Por tua causa, sou uma mulher melhor, uma filha melhor, uma cidadã melhor. Contigo, descobri o que é o amor, essa força que enche meu peito, se esparrama pelos meus poros e contamina cada uma das minhas células.
Amo tua carinha sonolenta, teu cheirinho quentinho quando sai da cama, teu andar ainda vacilante, tuas mãozinhas gordinhas curiosas, teus pezinhos ligeiros, teu olhar esperto, teu sorriso de poucos dentes, a tua pele macia. Amo estar contigo, brincar contigo, aprender contigo, crescer contigo.
Sou muito feliz por ser tua mãe. Sou grata a Deus por ter te colocado na minha vida, a minha valente menina que decidiu nascer, sim.
Valentina, minha filha: É teu aniversário e tu és o presente. O meu melhor presente.
Parabéns, minha bonequinha, minha florzinha, minha gatinha mais linda.
Te amo muito e sempre.
Beijocas estaladas da tua mamãe.
Marla
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Uma odisséia literária
Livros à esquerda e à direita. Livros à frente e ali atrás. Grandes, pesados, pequeninhos, baratos, caros. Todos livros. Todos encantadores. Deixei Valentina com o papai e passei o fim de semana enfurnada na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nem mesmo o temporal do sábado, que espantou os compradores e chegou a molhar livros, derrubou meu bom humor.
Essa atmosfera literária é fascinante. Os escritores invadem a praça, os leitores se aboletam nas tendas e eventos paralelos. Em uma saudação viva à cultura!
O adorável da Feira é como é democrática. Pra começar, não se paga ingresso. É possível circular por ali, olhar tudo, encontrar todos e não gastar um só tostão. E se não resistir à tentação, o andante encontrará obras para todos os bolsos e gostos. Tem crônica, poesia, romance, livro técnico; livro infantil, juvenil, adulto, pra mulher, pra homem – sei lá se existe isso essa divisão, but...
O cenário não podia ser melhor, com aqueles prédios centenários e jacarandás floridos. As pinturas do Margs, a história contada no Memorial, as artes se encontrando no Santander Cultural, os salões do Clube do Comércio abrigando oficinas e debates e prêmios.
Claro que não resisti e comprei vários títulos. Uns para introduzir a leitura na realidade da minha pequena, outros para eu mesma resgatar o hábito. Peguei autógrafos, conversei com autores, fui até mestre de cerimônia de um lançamento – minha estréia! Três dias que valeram cada segundo.
Hum, quando começa a 56ª?!
Essa atmosfera literária é fascinante. Os escritores invadem a praça, os leitores se aboletam nas tendas e eventos paralelos. Em uma saudação viva à cultura!
O adorável da Feira é como é democrática. Pra começar, não se paga ingresso. É possível circular por ali, olhar tudo, encontrar todos e não gastar um só tostão. E se não resistir à tentação, o andante encontrará obras para todos os bolsos e gostos. Tem crônica, poesia, romance, livro técnico; livro infantil, juvenil, adulto, pra mulher, pra homem – sei lá se existe isso essa divisão, but...
O cenário não podia ser melhor, com aqueles prédios centenários e jacarandás floridos. As pinturas do Margs, a história contada no Memorial, as artes se encontrando no Santander Cultural, os salões do Clube do Comércio abrigando oficinas e debates e prêmios.
Claro que não resisti e comprei vários títulos. Uns para introduzir a leitura na realidade da minha pequena, outros para eu mesma resgatar o hábito. Peguei autógrafos, conversei com autores, fui até mestre de cerimônia de um lançamento – minha estréia! Três dias que valeram cada segundo.
Hum, quando começa a 56ª?!
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Um dia de "mothern" - casamento na família
Sexta-feira, 2 de outubro, 7h30. Hora de pular da cama, "pelo menos, tem sol e está menos frio" é o estímulo. Tomar café, escolher a roupa, vestir, maquiar. Hum, um murmúrio no quarto: Valentina acordando. Muitos beijinhos e conversinhas pra ajudar a acordar. Escolher nova roupa - a de ontem à noite é quente demais pra hoje -, tirar o pijama, mais beijinhos e conversas, dá a mão aqui filha, depois tu pega o brinquedo. Vestir o resto da roupa. Filha, larga o brinco da mamãe, isso machuca. Toma o mamazinho de café da manhã, cadê a mochila, minha bolsa está aberta, droga! despencou tudo no chão. Descer os três andares de escada em cima do salto, equilibrando bolsa, muchi, Valentina e o celular, que quase fica pra trás, mais chaves de casa, do carro e controle remoto do portão. Prender a mocinha na cadeirinha, não filha, não é pra ir em pé, toma o brinquedo pra te distrair. Deixar a moça na creche, depois de muitos beijinhos mais.
Trabalhar, escrever, mandar e-mail, atender telefone. Obrigada, Marilyn, pelo anel, vai ficar lindo com o resto na festa. Conforme combinado com o chefe, working só até meio-dia. Opa, esqueci a bolsa da Marilyn lá em cima, Déa me alcança pleeease. Passada no banco para trocar o cheque - não, senhora, não é nessa agência, tem que ser na da sua conta.
Busca a mãe no salão, com o almoço embaixo do braço. Almoço, telefonema com a cunhada, sim, querida, te empresto um bolerinho, lá é frio. Uhu, 2016 é nosso. Deixa a mãe no salão, passa no banco, passa na Assembleia, não Fe, não dá pra te esperar, achei o brinco na gaveta, vai ficar lindo, depois mostro fotos. Droga, esqueci a necessaire de maquiagem no trabalho, volta lá, Déa me salva de novo!
Passa em casa, um banho rápido, mas com cremes e óleos pra pele estar bonita à noite. Camisa para não estragar o cabelo depois. Cunhada, quer carona?! Ah, já foi pro salão, tudo bem estou indo. 15h30, cabelereiro. Ele se atrasa dez minutos, será que fará falta?! Fofocas no salão, irritação com mensagens recebidas. Calma, não vamos estressar as celulazinhas neste dia importante. Ficou ótimo o cabelo! Abastece o carro, já na reserva, onde acho uma blusinha pra Valentina pôr embaixo do vestido?? Desculpe senhora, neste modelo, tamanho só RN. Na outra loja, segunda pele com rendinha na manga, perfeita. Ai, não dá pra dirigir encostada senão estraga o cabelo!
Em casa, um chimarrão enquanto maquia, droga! pq um olho não quer ficar igual ao outro?! Sai, maquiada mesmo, pra buscar Valentina na creche. Não filha, não puxa o cabelo da mamãe. Chegando em casa, janta da mocinha antecipada pra evitar fome durante a cerimônia. Vamos tomar um banho gostoso?! Nãããão ,não joga água pra cima da mamãe! Deixa mamãe pôr a meia-calça, tá fresquinho na rua, pega a pomada pra brincar. Põe blusinha nova, vestido e sapato vermelho fofo, está linda. Senta no andador pra não se sujar, ó o brinquedinho!
Termina a maquiagem, põe o vestido, Valentina, não tira o sapato! Bolerinho de manga curta dá conta da temperatura, mas não combina com o colar. Leva o mais quentinho no carro, pra se a temperatura mudar. Está ótima, passa perfume, coloca o sapato de salto. Filhinha, vamos pôr o bolerinho vermelho combinando, não tira o sapato! Imprime o mapa, pra não errar o caminho, cadê as folhas brancas dessa impressora?! Leva mamadeira de água, fralda e lenço na mochila do Backyardigans, que já é brinquedo. Ok, hora de sair, cadê a droga do sapato da guria?!?!?! Desce devagar, pra ninguém cair.
Chega no carro, não vou poder ir dirigindo, mãe, Valentina vai mamando. Onde é a igreja? pergunta pra esse moço aí. Ufa, 20h10min chegamos a tempo. Hora de curtir as emoções do casamento da Dai.
Trabalhar, escrever, mandar e-mail, atender telefone. Obrigada, Marilyn, pelo anel, vai ficar lindo com o resto na festa. Conforme combinado com o chefe, working só até meio-dia. Opa, esqueci a bolsa da Marilyn lá em cima, Déa me alcança pleeease. Passada no banco para trocar o cheque - não, senhora, não é nessa agência, tem que ser na da sua conta.
Busca a mãe no salão, com o almoço embaixo do braço. Almoço, telefonema com a cunhada, sim, querida, te empresto um bolerinho, lá é frio. Uhu, 2016 é nosso. Deixa a mãe no salão, passa no banco, passa na Assembleia, não Fe, não dá pra te esperar, achei o brinco na gaveta, vai ficar lindo, depois mostro fotos. Droga, esqueci a necessaire de maquiagem no trabalho, volta lá, Déa me salva de novo!
Passa em casa, um banho rápido, mas com cremes e óleos pra pele estar bonita à noite. Camisa para não estragar o cabelo depois. Cunhada, quer carona?! Ah, já foi pro salão, tudo bem estou indo. 15h30, cabelereiro. Ele se atrasa dez minutos, será que fará falta?! Fofocas no salão, irritação com mensagens recebidas. Calma, não vamos estressar as celulazinhas neste dia importante. Ficou ótimo o cabelo! Abastece o carro, já na reserva, onde acho uma blusinha pra Valentina pôr embaixo do vestido?? Desculpe senhora, neste modelo, tamanho só RN. Na outra loja, segunda pele com rendinha na manga, perfeita. Ai, não dá pra dirigir encostada senão estraga o cabelo!
Em casa, um chimarrão enquanto maquia, droga! pq um olho não quer ficar igual ao outro?! Sai, maquiada mesmo, pra buscar Valentina na creche. Não filha, não puxa o cabelo da mamãe. Chegando em casa, janta da mocinha antecipada pra evitar fome durante a cerimônia. Vamos tomar um banho gostoso?! Nãããão ,não joga água pra cima da mamãe! Deixa mamãe pôr a meia-calça, tá fresquinho na rua, pega a pomada pra brincar. Põe blusinha nova, vestido e sapato vermelho fofo, está linda. Senta no andador pra não se sujar, ó o brinquedinho!
Termina a maquiagem, põe o vestido, Valentina, não tira o sapato! Bolerinho de manga curta dá conta da temperatura, mas não combina com o colar. Leva o mais quentinho no carro, pra se a temperatura mudar. Está ótima, passa perfume, coloca o sapato de salto. Filhinha, vamos pôr o bolerinho vermelho combinando, não tira o sapato! Imprime o mapa, pra não errar o caminho, cadê as folhas brancas dessa impressora?! Leva mamadeira de água, fralda e lenço na mochila do Backyardigans, que já é brinquedo. Ok, hora de sair, cadê a droga do sapato da guria?!?!?! Desce devagar, pra ninguém cair.
Chega no carro, não vou poder ir dirigindo, mãe, Valentina vai mamando. Onde é a igreja? pergunta pra esse moço aí. Ufa, 20h10min chegamos a tempo. Hora de curtir as emoções do casamento da Dai.
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Caras e bocas: o bolo desandou
Análise interessante sobre essa novela, que tinha tudo para ser diferente e acabou igual a todas as outras...
Caras e boas e um bolo abatumado
Por Marcelo Spalding
Há anos que uma novela não conseguia me prender por mais de trinta minutos na frente da TV. E não foram poucas as tentativas: os tentáculos são longos e em qualquer jantar na casa da mãe ou da sogra, em qualquer festinha familiar lá está ela, plim-plim, com os choros e gritos de sempre.
Mas Caras & Bocas me pareceu diferente. Não porque a pintura seria o mote, mas porque de certa forma me cativaram os personagens, especialmente as crianças, e um bom personagem faz toda a diferença. Não estou falando do choramingo da mocinha Dafne (Flávia Alessandra), nem das maldades calculadas de Judith (Deborah Evelyn), mas ao redor do nhemnhemnhém havia a graça cáustica de Bianca (Isabelle Drummond) em contraponto ao desajeitado Felipe (Miguel Rômulo), um judeu (vivido por Sidnei Sampaio), uma menina cega (Danieli Haloten), famílias de negros e um macaco. Ou seja, todos os ingredientes para que se abordasse o preconceito racial, étnico, com os deficientes, os pobres, os velhos, de forma leve mas inteligente.
Infelizmente, porém, os ingredientes são muito melhores do que o bolo. Ou as tintas muito melhores que o quadro. A novela repete velhas fórmulas surradas e esgotadas, um maniqueísmo estúpido que associa bondade à burrice e maldade à esperteza, insiste em gracinhas repetitivas e não avança nas questões centrais. Pelo contrário, reforça estereótipos e preconceitos.
Vejamos alguns casos:
Benjamin, o judeu ortodoxo, dono de joalheria, é confrontado com as mil maravilhas do "nosso" mundo, inclusive uma estonteante mulher de cabelos vermelhos e pra lá de oferecida. Sua mãe, sentindo a tentação, arranja uma noiva ortodoxa e puritana, mas igualmente bela e loura e de olhos azuis. Benjamin fica balançado, e não se sabe o que vai acontecer. Mas importa? Já estão ali todos os estereótipos, o judeu é o careta (e rico), a mãe é a superprotetora, a noiva é uma ariana boba e a outra, esperta e sensual. Aposto que, se o público pudesse escolher, mataria a mãe.
Bianca, a princesa da novela, filha da rainha-protagonista, ganha a cena quando aparece com o inseparável Felipe, filho dos empregados da casa. Pobreza, para ela, é a treva. E repete o bordão a todo momento, com graça e ensaiada hipocrisia. Claro que de tanto repetir e vindo de uma atriz tão talentosa (ex-Emília), a ironia fica evidente, mas não há ninguém na história para dizer a ela o contrário, nem o amigo pobre jamais a deixou por isso. Parece que não há riscos em se odiar pobres e pobreza, apenas vantagens, o que está, vamos combinar, muito longe da realidade.
No núcleo pobre, aliás (não sei quem inventou essa história de núcleo nas novelas, é todo mundo rico ou pobre, ainda que pobre seja modo de falar), há outro romance interessante, do garçom Anselmo (Wagner Santisteban) com a menina cega Anita. Anselmo, com medo que Anita o rejeite, finge ser um milionário, e em diversos diálogos com a dona da pensão onde mora é humilhado não porque deveria falar a verdade e superar as barreiras, mas porque não tem condições de sustentar uma moça cega. Como assim? Quer dizer que um rapaz honesto não pode namorar uma cega apenas porque é garçom??? Provavelmente acabarão juntos, para a catarse popular, mas fico imaginando os milhares de jovens garçons, cobradores de ônibus ou lixeiros vendo a novela e pensando em seus sonhos de progredir, ter uma família, uma casa.
Ada (vivida por Amanda Azevedo), é a criança do "núcleo pobre", não por acaso negra. Uma graça de menina, desenvolta e de olhar vivo. Filha de pais trabalhadores, sonha ser dançarina e está sendo treinada pela dona da pensão, que nas horas vagas a faz ir com Anita, a cega, até a frente do restaurante ajudá-la a vender rosas. Claro que sem os pais dela saberem, afinal de contas a menina é bonitinha mas é negra, e bem pode ficar de pé vendendo rosas mesmo que em casa tenha comida, calor e afeto dos pais.
Na verdade, no bairro tem outra criança, o quase adolescente Espeto (David Lucas), sósia do Harry Potter, filho de Denis (Marcos Pasquim) e amigo do macaco. Aqui fica evidente o tipo de valores transmitidos por novelas como essa: o pai, pintor fracassado, um dia descobriu um macaco que pinta e alguém que se apaixonou pelas obras, prometendo fama e dinheiro. Com a ajuda do filho, fazem de tudo para que o macaco não seja descoberto e continue pintando. A pose do galã é de quem tem peso na consciência, mas sempre incentivado pelo filho (e criança pode tudo, não é mesmo?), mantém o plano e sabe-se onde vai dar. Também não importa: o fim justifica os meios.
E nem as mulheres, público sempre fiel das telenovelas, estão a salvo: quando não são bonitas, estão fadadas ao fracasso - Ísis (Carina Porto) -, e quando o são, devem arrumar um marido que traga mais vantagens possíveis. Aliás, é isso que faz a protagonista o tempo todo, arrumar alguém para casar a fim de herdar ações e dinheiro, e também Simone (Ingrid Guimarães), a amiga, e Milena (Sheron Menezes), a filha da empregada.
Aliás, no último capítulo que assisti antes de escrever este texto, Milena foi vítima de mais uma armadilha da malvada caricata Judith, que fez todos acreditarem que a menina roubara um anel. O dono do restaurante, sem pestanejar, chamou a menina e revistou sua bolsa. Claro que encontrou a peça lá, e todos, inclusive os garçons, acreditaram imediatamente na versão do roubo. Afinal, ela é negra, fica mais fácil associar o roubo a uma negra. E mesmo que a sinopse afirme ser ela "bonita e íntegra" e ter "orgulho de ser quem é, de seus princípios e valores", caiu facilzinho na lábia do riquinho malvado Nicholas, seu pseudonamorado, não por acaso branco (não sei por que nunca apareceu sendo cortejada por alguém mais próximo a ela, mesmo sendo realmente bonita, como se homens "comuns" não a interessassem, apenas filinhos de papai).
Enfim, é interessante observar como é difícil mudar uma visão de mundo construída há tanto tempo e com tanto cuidado pela plim-plim, onde o que impera é o consumo e as relações sociais nada mais são do que convenções e interesses de um lado, paixões descabidas e eternas de outro. Num mundo assim, os personagens são todos planos, sempre bons ou maus, sempre a favor ou contra a rainha, e a rainha é sempre linda e rica e loura. Até porque o resto, é a treva! E o que interessa, mesmo, é o horário comercial.
Caras e boas e um bolo abatumado
Por Marcelo Spalding
Há anos que uma novela não conseguia me prender por mais de trinta minutos na frente da TV. E não foram poucas as tentativas: os tentáculos são longos e em qualquer jantar na casa da mãe ou da sogra, em qualquer festinha familiar lá está ela, plim-plim, com os choros e gritos de sempre.
Mas Caras & Bocas me pareceu diferente. Não porque a pintura seria o mote, mas porque de certa forma me cativaram os personagens, especialmente as crianças, e um bom personagem faz toda a diferença. Não estou falando do choramingo da mocinha Dafne (Flávia Alessandra), nem das maldades calculadas de Judith (Deborah Evelyn), mas ao redor do nhemnhemnhém havia a graça cáustica de Bianca (Isabelle Drummond) em contraponto ao desajeitado Felipe (Miguel Rômulo), um judeu (vivido por Sidnei Sampaio), uma menina cega (Danieli Haloten), famílias de negros e um macaco. Ou seja, todos os ingredientes para que se abordasse o preconceito racial, étnico, com os deficientes, os pobres, os velhos, de forma leve mas inteligente.
Infelizmente, porém, os ingredientes são muito melhores do que o bolo. Ou as tintas muito melhores que o quadro. A novela repete velhas fórmulas surradas e esgotadas, um maniqueísmo estúpido que associa bondade à burrice e maldade à esperteza, insiste em gracinhas repetitivas e não avança nas questões centrais. Pelo contrário, reforça estereótipos e preconceitos.
Vejamos alguns casos:
Benjamin, o judeu ortodoxo, dono de joalheria, é confrontado com as mil maravilhas do "nosso" mundo, inclusive uma estonteante mulher de cabelos vermelhos e pra lá de oferecida. Sua mãe, sentindo a tentação, arranja uma noiva ortodoxa e puritana, mas igualmente bela e loura e de olhos azuis. Benjamin fica balançado, e não se sabe o que vai acontecer. Mas importa? Já estão ali todos os estereótipos, o judeu é o careta (e rico), a mãe é a superprotetora, a noiva é uma ariana boba e a outra, esperta e sensual. Aposto que, se o público pudesse escolher, mataria a mãe.
Bianca, a princesa da novela, filha da rainha-protagonista, ganha a cena quando aparece com o inseparável Felipe, filho dos empregados da casa. Pobreza, para ela, é a treva. E repete o bordão a todo momento, com graça e ensaiada hipocrisia. Claro que de tanto repetir e vindo de uma atriz tão talentosa (ex-Emília), a ironia fica evidente, mas não há ninguém na história para dizer a ela o contrário, nem o amigo pobre jamais a deixou por isso. Parece que não há riscos em se odiar pobres e pobreza, apenas vantagens, o que está, vamos combinar, muito longe da realidade.
No núcleo pobre, aliás (não sei quem inventou essa história de núcleo nas novelas, é todo mundo rico ou pobre, ainda que pobre seja modo de falar), há outro romance interessante, do garçom Anselmo (Wagner Santisteban) com a menina cega Anita. Anselmo, com medo que Anita o rejeite, finge ser um milionário, e em diversos diálogos com a dona da pensão onde mora é humilhado não porque deveria falar a verdade e superar as barreiras, mas porque não tem condições de sustentar uma moça cega. Como assim? Quer dizer que um rapaz honesto não pode namorar uma cega apenas porque é garçom??? Provavelmente acabarão juntos, para a catarse popular, mas fico imaginando os milhares de jovens garçons, cobradores de ônibus ou lixeiros vendo a novela e pensando em seus sonhos de progredir, ter uma família, uma casa.
Ada (vivida por Amanda Azevedo), é a criança do "núcleo pobre", não por acaso negra. Uma graça de menina, desenvolta e de olhar vivo. Filha de pais trabalhadores, sonha ser dançarina e está sendo treinada pela dona da pensão, que nas horas vagas a faz ir com Anita, a cega, até a frente do restaurante ajudá-la a vender rosas. Claro que sem os pais dela saberem, afinal de contas a menina é bonitinha mas é negra, e bem pode ficar de pé vendendo rosas mesmo que em casa tenha comida, calor e afeto dos pais.
Na verdade, no bairro tem outra criança, o quase adolescente Espeto (David Lucas), sósia do Harry Potter, filho de Denis (Marcos Pasquim) e amigo do macaco. Aqui fica evidente o tipo de valores transmitidos por novelas como essa: o pai, pintor fracassado, um dia descobriu um macaco que pinta e alguém que se apaixonou pelas obras, prometendo fama e dinheiro. Com a ajuda do filho, fazem de tudo para que o macaco não seja descoberto e continue pintando. A pose do galã é de quem tem peso na consciência, mas sempre incentivado pelo filho (e criança pode tudo, não é mesmo?), mantém o plano e sabe-se onde vai dar. Também não importa: o fim justifica os meios.
E nem as mulheres, público sempre fiel das telenovelas, estão a salvo: quando não são bonitas, estão fadadas ao fracasso - Ísis (Carina Porto) -, e quando o são, devem arrumar um marido que traga mais vantagens possíveis. Aliás, é isso que faz a protagonista o tempo todo, arrumar alguém para casar a fim de herdar ações e dinheiro, e também Simone (Ingrid Guimarães), a amiga, e Milena (Sheron Menezes), a filha da empregada.
Aliás, no último capítulo que assisti antes de escrever este texto, Milena foi vítima de mais uma armadilha da malvada caricata Judith, que fez todos acreditarem que a menina roubara um anel. O dono do restaurante, sem pestanejar, chamou a menina e revistou sua bolsa. Claro que encontrou a peça lá, e todos, inclusive os garçons, acreditaram imediatamente na versão do roubo. Afinal, ela é negra, fica mais fácil associar o roubo a uma negra. E mesmo que a sinopse afirme ser ela "bonita e íntegra" e ter "orgulho de ser quem é, de seus princípios e valores", caiu facilzinho na lábia do riquinho malvado Nicholas, seu pseudonamorado, não por acaso branco (não sei por que nunca apareceu sendo cortejada por alguém mais próximo a ela, mesmo sendo realmente bonita, como se homens "comuns" não a interessassem, apenas filinhos de papai).
Enfim, é interessante observar como é difícil mudar uma visão de mundo construída há tanto tempo e com tanto cuidado pela plim-plim, onde o que impera é o consumo e as relações sociais nada mais são do que convenções e interesses de um lado, paixões descabidas e eternas de outro. Num mundo assim, os personagens são todos planos, sempre bons ou maus, sempre a favor ou contra a rainha, e a rainha é sempre linda e rica e loura. Até porque o resto, é a treva! E o que interessa, mesmo, é o horário comercial.
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